Andrea
Nunes
A história de uma mulher que atravessou a dor mais funda e encontrou, do outro lado, um propósito maior do que si mesma.

A história de uma mulher que atravessou a dor mais funda e encontrou, do outro lado, um propósito maior do que si mesma.
Foi trabalhando com obituários que cheguei à conclusão: os vivos precisavam muito mais de mim.
Andrea Nunes não escolheu o caminho do cuidado por acidente. Ela chegou até ele carregando nas costas a experiência de quem já perdeu, de quem atravessou o deserto da dor e encontrou, do outro lado, um propósito maior do que si mesma.
Antes de fundar o Instituto do Câncer Sempre Com Você, ela trabalhava com obituários — redigindo as últimas palavras sobre vidas que haviam se encerrado. E foi exatamente ali, entre nomes, datas e famílias em luto, que a clareza chegou: havia uma carência enorme de apoio psicológico e orientação jurídica para quem ainda vivia, para os pacientes e suas famílias que enfrentavam o câncer praticamente sozinhos.
O começo de tudo — ou o que parecia ser o fim
A memória daquele dia permanece nítida para Andrea, com a textura de algo que mudou tudo. Era o aniversário de 18 anos de Aline, sua filha amada. Ela havia organizado cada detalhe da festa com carinho — o bolo, a decoração, os convidados.
Mas ao chegar ao local, se deparou com rostos que nunca havia imaginado: piercings, alargadores na orelha, aqueles "pregos na língua" que ela nunca entendera. E Aline, com os olhos brilhando de certeza, anunciou que queria ser tatuadora.
"Eu era muito preconceituosa em relação a isso. Para mim, aquilo parecia ser o fim."
Andrea sorri ao contar hoje. Porque ela sabe, com a clareza de quem viveu muito, que o episódio com Aline foi apenas um susto. O que viria dois dias depois é que mudaria tudo para sempre.

Adeus, Nelson Speedman
Dois dias depois, o fim que ela havia imaginado na festa da filha ganhou um rosto real. Nelson Speedman — seu amado esposo — faleceu.
Andrea ficou diante de um vazio que nenhuma palavra consegue preencher. Dois dias: do susto de mãe à dor mais funda de uma viúva. O mundo que ela conhecia havia chegado ao fim de verdade.
"Adeus, criador de curió. Adeus, meu marido — e a Deus, Nelson Speedman."
Não era apenas uma expressão: Nelson Speedman era associado da ACCJ — a Associação de Criadores de Curíos de Joinville. O pequeno pássaro canoro era sua paixão, e Andrea escolheu honrar isso nas últimas palavras que lhe dedicou. Uma memória que cabe numa carteirinha e que nenhum luto consegue apagar.

A carteirinha de Nelson na ACCJ — ele era criador de curíos em Joinville
Os três anos mais difíceis
Do outono de 2010 até meados de 2013, Andrea viveu o que ela mesma descreve sem rodeios: uma depressão profunda. "Não tinha vontade nem mesmo de viver." Uma frase curta, pesada, que carrega o peso de uma dor que muita gente conhece mas poucos conseguem nomear com essa honestidade.
Quem cuida de pacientes de câncer aprende a reconhecer esse lugar. Andrea o conheceu por dentro. Essa experiência — desumanizante e solitária — tornaria sua empatia algo diferente do comum: ela não simpatiza com a dor dos seus assistidos; ela a reconhece. Já esteve lá.
A saída veio de uma decisão pequena: entrar no coral de uma congregação. Novos rostos, novas amizades, um ritmo semanal que devolvia um pouco de sentido aos dias. Mas a vida tem o hábito de nos testar onde menos esperamos. Conflitos internos, a inveja que existe em qualquer ambiente, uma perseguição que a desgastou até o ponto de partir.

No coral da congregação — amizades que ajudaram a reconstruir
Ela saiu do coral. E foi exatamente nesse momento de recomeço que o caminho se abriu.
A câmera, o microfone e um chamado
Em janeiro de 2014, Andrea estreou o programa "Sempre Com Você" na TV Brasil Esperança de Joinville. Uma câmera, um microfone e uma mulher que havia atravessado os piores anos da própria vida e chegado do outro lado com algo importante a dizer.
O programa foi o embrião do instituto. Cada história que ela ouvia confirmava o que já havia percebido nos obituários: havia pacientes com câncer e famílias inteiras que enfrentavam o diagnóstico sem apoio emocional, sem orientação jurídica, sem alguém que simplesmente os visse. Que perguntasse: como você está de verdade?

Programa "Sempre Com Você" — TV Brasil Esperança de Joinville
Nasce o Instituto do Câncer Sempre Com Você
Da certeza que nasceu entre linhas de obituário e floresceu numa tela de TV, surgiu o Instituto do Câncer Sempre Com Você. Andrea Nunes transformou a própria dor em estrutura de cuidado. Porque ela sabe, como poucos fundadores sabem, que o câncer não destrói apenas células — destrói projetos, relacionamentos, contas bancárias, a autoestima, o senso de futuro.
E é exatamente nesse espaço — entre o diagnóstico e a vida que ainda pode ser vivida — que o instituto atua. Com apoio emocional, orientação jurídica, assistência social e a presença de quem não se afasta quando o assunto é difícil.
"Os vivos precisavam muito mais de mim."
Ela cumpre essa promessa todos os dias desde então.